Abr 282011
 

…ao professor de história…36 ANOS DEPOIS…

Exmo Senhor Professor,

Sou obrigado a escrever-lhe, nesta data, depois de ter escutado, com

toda a atenção, a aula de História, que nos deu sobre a Revolução de

Abril de 1974.

 

Li todos os apontamentos que tirei na aula e os textos de apoio que me

entregou para me preparar para o teste, que o Senhor Professor irá

apresentar-nos, na próxima semana, sobre a Revolução dos Cravos.

 

Disse o Senhor Professor que a Revolução derrubou a ditadura

salazarista e veio a permitir o final da Guerra Colonial, com a

conquista da Liberdade do Povo Português o dos Povos dos territórios

que nós dominávamos e que constituíam o nosso Império.

 

Afirmou ainda que passámos a viver em Democracia e que iniciámos uma

nova política de Desenvolvimento, baseada na economia de mercado.

 

Informou-nos também que a Censura sobre os órgãos de Comunicação Social

terminara e que a PIDE/DGS, a Polícia Política do Estado Fascista

acabara, dando a possibilidade aos Portugueses de terem liberdade de

expressão, opinião e pensamento. Hoje, todos eles podem exprimir as

suas opiniões nos jornais, rádio, televisão, cinema e teatro, sem

receio de serem presos.

 

Disse igualmente que Portugal era um país isolado no contexto

internacional e que agora fazemos parte da União Europeia e temos

grande prestígio no mundo. Que somos dos poucos países da União a

cumprir, na íntegra, os cinco critérios de convergência nominal do

Tratado de Maastricht para fazermos parte do pelotão da frente com

vista ao Euro.

 

Li os textos de apoio do Professor Fernando Rosas, onde me informam que

os Capitães de Abril são considerados heróis nacionais, como nunca

houvera antes na nossa história, e que eles são os responsáveis por

toda a modernidade do nosso país, pois se não tivesse acontecido a

memorável Revolução, estaríamos na cauda da Europa e viveríamos em

grande atraso, em relação aos outros países, e num total obscurantismo.

 

Tinha já tudo bem compreendido e decorado, quando pedi ao meu pai que

lesse os apontamentos e os textos para me fazer perguntas sobre a tal

Revolução, com vista à minha preparação para o teste, pois eu não

assisti ao acontecimento histórico, por não ter ainda nascido, uma vez

que, como sabe, tenho apenas dezasseis anos de idade.

 

Com o pedido que fiz ao meu pai, começaram os meus problemas pois ele

ficou horrorizado com o que o Senhor Professor me ensinou e chamou-lhe

até mentiroso porque conseguira falsificar a História de portugal. Ele

disse-me que assistira à Revolução dos Cravos dos Capitães de Abril e

que vira com «os olhos que a terra há-de comer» o que acontecera e as

suas consequências.

 

Disse-me que os Capitães foram os maiores traidores que a nossa

História conhecera, porque entregaram aos comunistas todo o nosso

império, enganando os Portugueses e os naturais dos territórios, que

nos pertenciam por direito histórico. Que a Guerra no Ultramar

envolvera toda a sua geração e que nela sobressaíra a valentia dum povo

em armas, a defender a herança dos nossos maiores.

 

Que já não existia ditadura salazarista, porque Salazar já tinha

morrido na altura e que vigorava a Primavera Marcelista que,

paulatinamente, estava a colocar Portugal na vanguarda da Europa. Que

hoje o nosso país, conjuntamente com a Grécia, são os países mais

atrasados da Comunidade Europeia.

 

Que Portugal já desfrutava de muitas liberdades ao tempo do Professor

Marcelo Caetano, que caminhávamos para a Democracia sem sobressaltos,

que os jovens, como eu, tinham empregos assegurados, quando terminavam

os estudos, que não se drogavam, que não frequentavam antros de deboche

a que chamam discotecas, nem viviam na promiscuidade sexual, que hoje

lhes embotam os sentidos.

 

Disse-me também que ele sabia o que era Deus, a Pátria e a Família e

que eu sou um ignorante nessas matérias. Aliás, eu nem sabia que a

minha Pátria era Portugal, pois o Senhor Professor ensinou-me que a

minha Pátria era a Europa.

 

O meu pai disse-me que os governantes de outrora não eram corru pt os e

que após o 25 de Abril nunca se viu tanta corrupção como actualmente.

Também me disse que a criminalidade aumentara assustadoramente em

Portugal e que já há verdadeiras máfias a operar, vivendo à custa da

miséria dos jovens drogados e da prostituição, resultado do abandono

dos filhos de pais divorciados e dum lamentável atraso cultural, em

virtude de um Sistema Educativo, que é a nossa maior vergonha, desde há

mais vinte anos.

 

Eu fiquei de boca aberta, quando o meu pai me disse que a Censura

continuava na ordem do dia, porque ele manda artigos para alguns

jornais e não são publicados, visto que ele diz as verdades, que são

escamoteadas ao Povo Português, e isso não interessa a certos orgãos de

Comunicação Social ao serviço de interesses obscuros.

 

O meu pai diz que o nosso país é hoje uma colónia de Bruxelas, que nos

dá esmolas para nós conseguirmos sobreviver, pois os tais Capitães de

Abril reduziram Portugal a uma «pobreza franciscana» e que o nosso país

já não nos pertence e que perdemos a nossa independência.

 

Perguntei-lhe se ele já ouvira falar de Mário Soares, Almeida Santos,

Rosa Coutinho, Melo Antunes, Álvaro Cunhal, Vítor Alves, Vítor Crespo,

Lemos Pires, Vasco Lourenço, Vasco Gonçalves, Costa Gomes, Pezarat

Correia… Não pude acrescentar mais nomes, que fixara com enorme

sacrifício e trabalho de memória, porque o meu pai começou a vomitar só

de me ouvir pronunciar estes nomes.

 

Quando se sentiu melhor, disse-me que nunca mais lhe falasse em tais

«sacanas de gajos», mas que decorasse antes os nomes de Vasco da Gama,

Pedro Álvares Cabral, Diogo Cão, D. João II, D. Manuel I, Bartolomeu

Dias, Afonso de Alburquerque, D. João de Castro, Camões, Norton de

Matos, porque os outros não eram dignos de ser Portugueses, mas estes

eram as grandes e respeitáveis figuras da nossa História.

 

Naturalmente que fiquei admirado, porque o Senhor Professor nunca me

falara nestas personagens tão importantes e apenas me citara os nomes

que constam dos textos do Professor Fernado Rosas.

 

Senhor Professor, dada a circunstância do meu pai ter visto, ouvido,

sentido e lido a Revolução de Abril, estou completamente baralhado, com

o que o Senhor me ensinou e com a leitura dos textos de apoio. Eu julgo

que o meu pai é que tem razão e, por isso, no próximo teste, vou seguir

os conselhos dele.

 

Não foi o Senhor Professor que disse que a Revolução nos deu a

liberdade de opinião? Certamente terei uma nota negativa, mas o meu pai

nunca me mentiu e eu continuo a acreditar nele.

 

Como ele, também eu vou pôr uma gravata preta no dia 25 de abril, em

sinal de luto pelos milhares de mortos havidos no nosso Império,

provocados pela Revolução dos Espinhos, perdão, dos Cravos.

 

O Senhor disse-me que esta Revolução não vertera uma gota de sangue e

agora vim a saber que militantes negros que serviram o exército

português, durante a guerra, que o Senhor chamou colonial, foram

abandonados e depois fuzilados pelos comunistas a quem foram entregues

as nossas terras.

 

Desculpe-me, Senhor Professor, mas o meu pai disse-me que o Senhor era

cego de um olho, que só sabia ler a História de Portugal com o olho

esquerdo. Se o Senhor tivesse os dois olhos não me ensinaria tantas

asneiras, mas que o desculpava porque o Senhor era um jovem e

certamente só lera o que o Professor Fernando Rosas escrevera.

 

A minha carta já vai longa, mas eu usei de toda a honestidade e espero

que o Senhor Professor consiga igualmente ser honesto para comigo, no

próximo teste, quando o avaliar.

 

Com os meus respeitosos cumprimentos

 

O seu aluno

 

Todos os anos, nesta data, se fala em comemorações em todo o país, mas eu pergunto: COMEMORAR O QUÊ?!

 Leave a Reply

(required)

(required)

You may use these HTML tags and attributes: <a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <strike> <strong>