…(O texto infelizmente não é meu)…
Zé, meu compincha que tão bem me entendes e compreendes,
Escrevo-te esta carta porque estou revoltada e quero protestar contra as
injustiças deste povo em relação a ti e ao teu magnífico governo. Escrevo-te
para manifestar a minha solidariedade para contigo, génio incompreendido,
como, de resto, o são todas as grandes mentes. Tu, que procuras o bem do teu
país, tu que lutas pelo desenvolvimento tecnológico, pela educação, pela
saúde, pela economia, pelo trabalho… E, apesar de todos os teus abnegados
e heróicos esforços, ninguém te compreende!
Cerca de 300.000 pessoas, um pouco por todo o país, tudo a protestar contra
o estado das coisas, contra a falta de oportunidades… Eles não entendem o
que tu já tens feito pelo bem deles!
Tu, que levaste para a frente as Novas Oportunidades para que qualquer
analfabeto possa aumentar a sua auto estima dizendo que tem o 9º ano sem ter
que ir às aulas;
Tu, que criaste programas de estágio para que os licenciados e mestres
possam adiar uns meses o desespero do desemprego e, entretanto, serem
explorados a baixo custo com imensas regalias… para as empresas;
Tu, que proporcionaste aos alunos a possibilidade de transitarem de ano sem
qualquer esforço, criando dificuldades aos malvados dos professores que os
queiram reter caso não tenham tido aproveitamento;
Tu, que deste a volta àquela insustentável segurança social que não dava
lucros nenhuns, como era o seu objectivo, garantindo, agora, que todos
possam ter reformas menores e menos protecção na doença e no desemprego;
Tu, que cortaste os salários aos funcionários públicos, mas que tiveste a
decência de salvaguardar os vencimentos dos administradores e dos teus
amiguinhos;
Tu, que criaste mais dívida para que todos possamos sonhar com uma viagem de
TGV, apesar de não termos dinheiro para os bilhetes e enquanto os
trabalhadores da CP vêm as suas condições de trabalho a piorar;
Tu, que poupas dinheiro e decides não fazer um metro em cidades
insignificantes como Coimbra, que não te metes em despesas com transportes
públicos, tu que ainda por cima só tens 20 motoristas por tua conta e uns
poucos por conta dos teus amiguinhos;
Tu, que organizas festas e viagens para mostrar o que de “melhor” por cá se
faz, sem olhares a custos…
Tu, que és tão bonzinho, que nos compreendes tão bem, que és tão solidário
para com os jovens, para com os trabalhadores, para com os pensionistas…
Ninguém te compreende… Pedes justificados e pertinentes sacrifícios à
população, discursas sobre o quanto nos entendes e lamentas o que passamos,
pois não tens quaisquer responsabilidades sobre o estado das coisas! A culpa
é da Ângela, do Nicolau e dos outros meninos maus da Europa. Tu não tens
culpa!
Não tens culpa de te preocupares com as despesas excepto com as que dizem
respeito a ti e aos teus amigos!
Não tens culpa de quereres luxos na educação, saúde, tecnologia e
transportes (de que importa se ainda nem o básico está assegurado?)!
Não tens culpa de desconheceres o que é viver com um salário mínimo ou médio
tendo comida, escola, gasolina, água, gás, luz, medicamentos, e outras
despesas que tais, para pagar.
Não tens culpa que os professores se sintam mais reclusos que educadores e
fontes de conhecimento por causa dum modelozinho de avaliação inofensivo.
Não tens culpa que os pais dos meninos não tenham dinheiro para lhes pagarem
os estudos e os sustentarem quando eles não arranjam emprego.
Enfim… Às vezes sinto que vivemos num mundo ao contrário…
Eu, chamo-me Alice e vivo em Portugal, um país que não me dá oportunidades
de crescimento, que desaproveita todo o investimento que eu, os meus pais e
o estado fizeram no meu desenvolvimento pessoal e académico.
Tu és o Zé e vives no País das Maravilhas, um país em que tudo é como devia
ser, graças a ti, mas as pessoas que o habitam são burras e não percebem o
bem que lhes fazes.
Não me alongarei muito mais nesta carta, pois já deves ter percebido que
estou do teu lado e que te compreendo totalmente! Sugiro-te que saias de
Portugal… Por muito que te custe abandonar a pátria pela qual tanto te
tens sacrificado, julgo que terás um futuro melhor, em que sejas mais bem
tratado, fora deste país cujo povo não te entende nem dá valor ao que tens
feito. Vai por exemplo para o Pólo Norte ou para a Gronelândia… Dizem que
lá há muito espaço para construíres aeroportos, pontes, linhas de alta
velocidade e auto-estradas!
Um beijinho e desejos de boa viagem,
Alice”
Artigo escrito por Alice Morgado
Retirado do Blogue “FANTÁSTICO, MELGA!
14 de Mar de 2011
